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terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Hoje
Abrirei meu oráculo
Permitirei o que há de vir a mim
Toda sorte dos desejos mais profundos 
Dos mais lépidos aos mais atrozes
Aqueles que miseravelmente venho sufocando 
Aqueles que impreterivelmente vem me rustindo a alma 
Deixarei agir em mim, toda força que as paixões exercem
Como se hoje, fosse um dia perfeito. 



Segue o navio brando
Sob o imenso azul plano
Ao teu lado, concentro-me em teu rosto nú,
Cujos os olhos à beira do abismo descansam libertos

Dorme indefeso
Te fito ao mesmo instante que reflito
Que eu poderia afagar seus cabelos, tal qual cortá-los
Corre risco protegido
Mas você inspira e respira, bravamente

Tua serenidade me inquieta
Horizontes turvos, corais de medo
É chegada a tormenta
Mas distante do porto
Meus gritos a ti,
Não são mais que silêncios

Permanece leve, fluído e certo
Leio tua calma
Pressinto tua cruel tranquilidade e a invejo
Tua coragem revela-me meu desespero
Talvez você acredite mais em mim
Do que eu mesma...

domingo, 13 de outubro de 2024

Vou para dentro do meu quarto e fecho a porta, tudo está tão escuro. Deito-me e desejo com súplica que a cama me abrace e me acalme, mas a angústia que perpetua o amargo dos meus dias, queima-me com frieza. Quero me esconder, quero me preservar de tudo o que deixei de fora, pela razão de tudo o que há por dentro. Quão assombroso pode ser a luz do dia?
Quero encolher-me na tentativa inútil de ser esquecida por mim mesma, mas o que deixei do outro lado parece me engolir. Há uma tentativa falha em não existir, mas em alguns segundos, entre as palmas de minhas mãos certifico-me de que ainda estou ali, como um objeto que não compõe o próprio espaço que ocupa. Viro-me para o canto para não ver a fresta da porta, mas é pelas minhas costas que escorrega tudo o que não consegui esquecer... Deslizo-me aos pés da cama, rezo aos deuses que o mito torne-se real. 


quinta-feira, 24 de novembro de 2022


Não lhe quero, senão, na medida que me ofertas, 
vagarosamente, a conta-gotas, na quantia que o céu tem me reservado.
Não lhe quero por inteiro. Como almejaria tamanha façanha?
Se nem mesmo a força motriz que sustenta meus desejos, deu-me ousadia para tanto.
Se nem mesmo o inferno que circunda m'inha alma, advogou em minha causa.
Contudo, lhe quero:
Como em meus sonhos
Enquanto me esquece
Enquanto escrevo
Quando desapareço
Quando não posso
Quando é inadequado
Quando fujo
Quando desconfio de mim
Quando desacredito de ti
Lhe quero mesmo quando não o quero
E depois lhe quero mais.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Pedra de rio 
Flor do cerrado 
Arame farpado 
Rio com correnteza 
Sou de Chapada 
Sou corredeira 
Arrastando margens
Sou das barrancas
Mas também sou das águas

sábado, 28 de outubro de 2017

Dedal-de-dama
Trepadeira muito vigorosa, com variável tonalidades de flores, sempre tutorada com arames muito firmes, pois apresenta ramos fortes e pesados.
Das flores que o outono levam ao chão, adaptável em regiões do sol nascente ao poente, leste a oeste, semi-lenhosa. Cabe num enfeite, mas sabe que nasceu para riscar muros, cravar arbustos. Vai na vida criando rumos. Não requer muitos cuidados, quer o mundo. Sendo este o outro lado do muro. Recria-se. Espalha-se com facilidade. Selvagem e resistente, como tinha de ser. Cuidado! As Alamandas são tóxicas.
Estive falando de flores, com a morte delas em minhas mãos. Estive falando também de mim. Confesso o que não deixo escapar. Doravante, entre os vãos de meus dedos a liberto agora e já. Por covardia ou por coragem, sei lá!

domingo, 1 de outubro de 2017

Nós lobas

Nós lobas, não tememos a selvageria, pois nela (re)criamos nossa própria (re)significação enquanto nossa essência. Só tem medo do que é selvagem, e por assim dizer, natural, a criatura quase castrada, amordaçada, retirada aos cativeiros mais cruéis dos homens. Nós lobas, somos selvagens por natureza e (re)existimos, no breu das noites de lua cheia, no ciclo sagrado dos nossos corpos, nos períodos férteis e lúteo, na proteção da nossa alcateia, em caçada voraz, em nosso desejo edaz, nas matas mais gélidas, em solos mais tórridos. Em nossos olhos vermelhos explode altivez e em nosso útero rebentam a vida. A nós lobas ser selvagem é vital. Desse modo, não há outra forma de ser em nosso íntimo. A selvageria que me és visceral, que me percorre e deságua em minhas entranhas é feito cálice, é cura. E não há um dia abaixo deste céu, ou acima desta terra que eu não a sentisse.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Não posso dormir, pois não quero sonhar
Meus sonhos zombam de mim
Não posso dormir, pois não quero sonhar
Ter-te em diálogos, ditados
Respostas infalíveis,
Mas em meus sonhos sempre deixo-o ir 

Não posso dormir, pois não quero sonhar
Com encontros acasos
Olhares exatos
E deixá-lo escapar

Não posso dormir, pois não quero sonhar
A sua vontade de acompanhar-me no café
O interesse pelos meus pensamentos
O desejo de ter-me em seus braços

Não posso dormir, pois não quero sonhar
Com as ilhas que sempre seremos
Com momentos que escorre entre meus dedos
Com o nunca tocar em seus cabelos

Não posso dormir, pois não quero sonhar
Não posso fechar meus olhos
Não posso flechar os teus olhos
Não posso fechar teus olhos

Não quero dormir, pois acordada te sonho
E mesmo nesses sonhos lúcidos
Não o tenho
Não me deixo e deixo-te

Não posso dormir, pois não quero sonhar
Com o vento que assopra-nos para o depois
Para o abismo que nunca irei cair
Pelo céu que nunca irei voar

Não quero dormir, pois já não posso sonhar
Somente recrio falsas lembranças
Farsas que eu mesma acredito
Descri-o e desacredito de mim

Meus sonhos são estúpidos por demais
São cópias do avesso dos desejos trancados
Quadros lúgubres
A própria morte

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Na madrugada sou eu
Que encontra os barcos abandonados
Que revira os sete mares
Que ancora este coração frio e leviano no fundo do oceano
Que vaga nas noites escuras neste apagão de estrelas
Que busca incessantemente aventuras sombrias
Que chega em ilhas desconhecidas
Somente eu que pauso a respiração para ouvir o quebrar das ondas
Que fecho os olhos para sentir a brisa congelada que pousa em minha pele
Que abro os braços em busca de aconchegar essas ventanias marítimas
Que se alegra com o brilho do farol a distância e não se cansa... não se cansa
Que junta céu e mar quando pensa em navegar
Que consegue sentir o sabor fresco do vento forte da costa
Entre outras, somente eu que sei a hora de parar e continuar
Que sabe a diferença entre de afogar-se e inundar-se
E a única que sabe como achar um caminho para nunca mais voltar