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terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Segue o navio brando
Sob o imenso azul plano
Ao teu lado, concentro-me em teu rosto nú,
Cujos os olhos à beira do abismo descansam libertos

Dorme indefeso
Te fito ao mesmo instante que reflito
Que eu poderia afagar seus cabelos, tal qual cortá-los
Corre risco protegido
Mas você inspira e respira, bravamente

Tua serenidade me inquieta
Horizontes turvos, corais de medo
É chegada a tormenta
Mas distante do porto
Meus gritos a ti,
Não são mais que silêncios

Permanece leve, fluído e certo
Leio tua calma
Pressinto tua cruel tranquilidade e a invejo
Tua coragem revela-me meu desespero
Talvez você acredite mais em mim
Do que eu mesma...

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Pedra de rio 
Flor do cerrado 
Arame farpado 
Rio com correnteza 
Sou de Chapada 
Sou corredeira 
Arrastando margens
Sou das barrancas
Mas também sou das águas

sábado, 28 de outubro de 2017

Dedal-de-dama
Trepadeira muito vigorosa, com variável tonalidades de flores, sempre tutorada com arames muito firmes, pois apresenta ramos fortes e pesados.
Das flores que o outono levam ao chão, adaptável em regiões do sol nascente ao poente, leste a oeste, semi-lenhosa. Cabe num enfeite, mas sabe que nasceu para riscar muros, cravar arbustos. Vai na vida criando rumos. Não requer muitos cuidados, quer o mundo. Sendo este o outro lado do muro. Recria-se. Espalha-se com facilidade. Selvagem e resistente, como tinha de ser. Cuidado! As Alamandas são tóxicas.
Estive falando de flores, com a morte delas em minhas mãos. Estive falando também de mim. Confesso o que não deixo escapar. Doravante, entre os vãos de meus dedos a liberto agora e já. Por covardia ou por coragem, sei lá!

domingo, 1 de outubro de 2017

Nós lobas

Nós lobas, não tememos a selvageria, pois nela (re)criamos nossa própria (re)significação enquanto nossa essência. Só tem medo do que é selvagem, e por assim dizer, natural, a criatura quase castrada, amordaçada, retirada aos cativeiros mais cruéis dos homens. Nós lobas, somos selvagens por natureza e (re)existimos, no breu das noites de lua cheia, no ciclo sagrado dos nossos corpos, nos períodos férteis e lúteo, na proteção da nossa alcateia, em caçada voraz, em nosso desejo edaz, nas matas mais gélidas, em solos mais tórridos. Em nossos olhos vermelhos explode altivez e em nosso útero rebentam a vida. A nós lobas ser selvagem é vital. Desse modo, não há outra forma de ser em nosso íntimo. A selvageria que me és visceral, que me percorre e deságua em minhas entranhas é feito cálice, é cura. E não há um dia abaixo deste céu, ou acima desta terra que eu não a sentisse.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Na madrugada sou eu
Que encontra os barcos abandonados
Que revira os sete mares
Que ancora este coração frio e leviano no fundo do oceano
Que vaga nas noites escuras neste apagão de estrelas
Que busca incessantemente aventuras sombrias
Que chega em ilhas desconhecidas
Somente eu que pauso a respiração para ouvir o quebrar das ondas
Que fecho os olhos para sentir a brisa congelada que pousa em minha pele
Que abro os braços em busca de aconchegar essas ventanias marítimas
Que se alegra com o brilho do farol a distância e não se cansa... não se cansa
Que junta céu e mar quando pensa em navegar
Que consegue sentir o sabor fresco do vento forte da costa
Entre outras, somente eu que sei a hora de parar e continuar
Que sabe a diferença entre de afogar-se e inundar-se
E a única que sabe como achar um caminho para nunca mais voltar