quarta-feira, 14 de julho de 2021

Sem título

Sem peanhas que me sustente
Sem fé em destino qualquer que me oriente
Em dias horríveis como este
Tão somente tenho aos meus pés
Para calçar o solo deste chão sangrento
Justo um calcante em arado
Perfurando a superfície desta terra exaurida
E nas raízes da ancestralidade que me funda
Qual o meu quinhão neste lastro que me persegue?
No tecido cingido por minha mãe
No aço prensado por meu pai
O que faço, senão costurar
Os retalhos desta vida acidental?
Ainda que alinhavando caminhos e descaminhos
Qual meu ofício nesta realidade dissolvida?
Qual substância me concede significância nesta existência?
E se a matéria real nos criou...
Qual elemento me fundou junto a travessia nesta jangada?