sexta-feira, 9 de julho de 2021

Bilhete Secreto

Pudera eu, passar-me por um bilhete 
Tal qual um pedaço miúdo de papel transparente 
Deixado num canto da mesa de um recinto qualquer
Quisera você sem demora, num rabisco insaciável
Entalhar-me como açoites tuas vigorosas digitais
Todos os desejos e impulsos que a linguagem conhece
E pelas tuas mãos penetrar em silêncio 
O lugar seguro do esquecimento
Perdêreis a mim num bolso qualquer da tua roupa
Para na quietude de um descanso noturno 
Você me encontrar
E num dos recônditos da tua alma
 Fazer eterna morada
Num canto de armário por detrás dos cristais
Sob a toalha de vinil que encobre a mesa
Dentro de um livro que ninguém mais lê
Num fundo falso de um criado-mudo
Num baú ancestral de coisas miúdas
Num canto de gaveta das pratarias
Numa caixa desusada de sapatos 
Por dentro de um porta-retratos
Num clandestino invisível
Num esconderijo
Secreto