quarta-feira, 30 de junho de 2021

Desejo Imediato

No deleite temeroso das minhas procuras
Sem eira nem beira
Nada tenho, em nada estou, a nada pertenço
Tal qual papel no vento
Com inclinações e aspirações despretensiosas
Almejo apenas estar à altura
Da grandiosa incompletude da vida
Conformar-me com satisfação divina
 À pequenez desta jornada sólida
Ser forte nas agruras diárias
Sem roubar-me da simples beleza 
Dos escassos instantes de leveza
A vida não é esta dureza
Dureza é não saber amar
Mais triste que nunca beirar um mar
É não beirar o amor
Exímia em comer pelas beiradas
Colhi muito farelo
Um pouco do chão
Um pouco da mesa
Nunca do pão
O doce da vida sempre esteve suspenso
Passei pela mocidade desta breve existência
Desejando que ele desabasse sobre mim
Num mundo tresloucado
Num universo infinito
Presa a um formato ínfimo
Sôfrega e desatinada
Nesta realidade de dores lancinantes
Vou pouco a pouco
Deixando de pairar sobre as incertezas estanques
De um futuro certo da morte
Para sentir o corpo pesar 
Sobre o presente ardente desta vida
Que merece ser vivida