quarta-feira, 2 de abril de 2014

Porque estamos sempre em busca de algo transcendental?
O desconhecido
O surpreendente
Algo maior que nós mesmos
Buscamos ultrapassar linhas imaginárias
Queremos vencer medos, viver coisas impossíveis
Vencer o tempo,
Nos achamos dignos
Não somos figuras especiais
Somos vários corpos por aí
À procura, à espreita
Em encontros, em desencontros
Desacertadamente certos
Desatentamente atentos
Intentos
Sem tantas intenções
Preocupados e despreocupados
Pois tudo o que há, é, e está no avesso
Avessos, inversos e reversos
E nesse verso eu procuro meus desencontros

Isso é uma denúncia
De morte,
De um corpo
De um copo
Todo corpo é um copo
De muitos corpos nos embebedamos
Em muitos corpos mergulhamos à procura
De nossos próprios copos,
Mas também à caça de nossos desencontros

Colidimos nossos corpos
Como aqueles que dizem tim-tim ao brindar
Mas também como aqueles que derrubam o copo
Como os que atiram-no contra paredes, muro
O chão, e corpos

Cada copo é um caminho
Assim como o caminho é o copo
Copos quentes, corpos em chamas
Corpos à espera de um gole
Copos vazios, copos transbordando
Que tipo de copo é você?

Gosto de encher copos
Mas também de esvaziá-los
Vários copos, corpos inteiros
Dos mais variados
Sabores e cheiros
Gosto de copos cheios
Bamburrando
Lambuzantes
Copos transbordantes
Que escorrem à mesa
Corpos que escorrem nas mãos

O vazio de um corpo
É um vazio de um copo
A ilusão,
A ilusão é um copo vazio, muito caro
Mas eu quero beber desse copo
Desse copo escorregadio
Desse copo safo, safado
Desse copo sujo
Desses corpos impuros
Desse copo sem crenças
Desse copo mundano
Desse copo impudico
Desse copo usado
Com dono ou sem dono
Bebido ou lambido
Bebê-los por inteiro
Até secar,
Até molhar-me
Deixe-me saciar
Saciá-los
Sem freio, sem medo
Sem eira nem beira
Nem que seque
Nem que seja
Pelas eiras, ou pelas beiras
Até que me afunde
Ao fim do poço
No fim de um corpo
Ao labirinto de suas almas
Ao néctar dessa vida imaginária

Em minhas fantasias
Afogar-me-ia
Num gole de vida e num gole de morte
Viver é morrer todos os dias
De gole em gole
Copo à copo
Pouco à pouco
Mais do mesmo
Do copo ao corpo do avesso
Desfeito
Um delito de morte
Um acerto da (des)sorte
Em cada copo ver um corpo
E assim ir bebendo a vida
Sem sina
Sem linhas
Sem grades
Sem chão
Sem estação
Apenas portos dos corpos em cada copo
Um pouco dessa minha vida desvivida.

Rafaela Hernandes